Óleos Essenciais: O Início de sua História no Brasil

Escrito por Wagner Azambuja

A indústria de óleos essenciais no Brasil iniciou as suas atividades em 1925, quando começou a extrair o óleo essencial de pau-rosa (Aniba rosaeodora) para substituir a produção franco-guianense que vinha se perdendo em decorrência da intensa exploração da árvore. Mas foi só no final da década de 30, com a ocorrência da Segunda Guerra Mundial, que a indústria nacional passou a se desenvolver. Isto ocorreu porque a guerra afetou e desorganizou todo o comércio europeu, fazendo com que as empresas daquela região buscassem novos fornecedores. O Brasil então apareceu como uma alternativa, afinal, além da mão de obra barata, nosso país chamava a atenção por sua enorme riqueza natural. A partir daí, novas culturas começaram a ser exploradas e passamos a disponibilizar no mercado uma variedade um pouquinho maior de óleos essenciais, como sassafrás, menta, laranja e eucalipto.

“Bem antes da indústria de óleos essenciais iniciar suas atividades no Brasil, vários pesquisadores já trabalhavam com este tema, como o farmacêutico Theodor Peckolt. Peckolt, que nasceu na Silésia alemã, atual Polônia, chegou ao Brasil em 1847, onde publicou uma vasta literatura sobre a flora brasileira (cerca de 170 trabalhos), incluindo dados sobre o rendimento e a composição de vários óleos essenciais.”

Óleo Essencial de Sassafrás

 

De acordo com o trabalho “Os Óleos Essenciais do Brasil”, publicado em 1971 pelo economista Helson C. Braga, antigamente havia a distinção entre três variedades de sassafrás que se diferenciavam pela cor da madeira e pelo conteúdo de óleo: a preta (1,5% de óleo), a parda (1,2%) e a amarela (0,9%). De qualquer maneira, o óleo essencial é um líquido amarelado ou amarelo-avermelhado que se torna escuro e espesso com o tempo. Quando mal conservado, em contato com o ar e a luz, oxida-se e se torna ainda mais espesso e viscoso. Porém, a sua densidade nunca se altera, mesmo em altas variações de temperatura, razão pela qual este óleo já foi utilizado como um componente na fabricação de combustível para espaçonaves. Apresenta cheiro forte e agradável, bem como sabor acre e aromático que lembra a sua origem, e o seu principal constituinte é o safrol, que representa até 95% da sua composição, além de outros elementos, como alfa-pineno, eugenol, cineol, furfural, benzaldeído, n-valeraldeído e outros. É reconhecido como anti-séptico e anti-reumático e apresenta numerosas aplicações industriais.

A primeira destilação brasileira do óleo essencial de sassafrás ocorreu em 1938, em caráter experimental no estado de Santa Catarina (Vale do Itajaí). Pouco depois, com a elevação dos gastos de importação em decorrência da Primeira Guerra Mundial, a produção deste óleo deu um salto gigantesco em território nacional. Em 1942 a produção foi de 40 toneladas, subindo assustadoramente para 2500 toneladas em 1970. Após 1975, porém, a atividade extrativista entrou em declínio, com reflexos nos níveis de produção e de exportação devido à ausência de replantio nas áreas anteriormente exploradas e ao não manejamento das culturas. Com isto, a árvore foi incluída na lista de espécies em risco de extinção e a sua exploração passou a ser controlada.

Como já exposto, o principal componente do óleo essencial de sassafrás é o safrol, um fenil-éter volátil. Esse composto é utilizado pela indústria como matéria prima na manufatura de heliotropina (fixador de fragrâncias) e butóxido de piperonila (agente sinergístico nos inseticidas e pesticidas naturais à base de Piretrum). Inclusive, o processo de retificação do óleo essencial de sassafrás para a obtenção da heliotropina se baseia na isomerização do respectivo derivado propenílico, o iso-safrol, por aquecimento com potassa alcoólica, que por fim é oxidado. Deste processo resulta, por destruição parcial da cadeia lateral, o aldeído 3,4-metilenodioxi-benzaldeído ou piperonal, mais conhecido por heliotropina.

 

Óleo Essencial de Mentha arvensis

 

No Brasil a Mentha arvensis foi introduzida durante a Primeira Guerra Mundial. No entanto, foi só em 1936 que esta espécie passou a ser cultivada com objetivos comerciais, a partir das sementes importadas do Japão. Ao longo da década de 60, cerca de 90% da produção nacional desse óleo se concentrava no Paraná – que geralmente exportava o óleo bruto para a obtenção conjunta de mentol e óleo desmentolado. Pouco tempo depois o Brasil já ocupava a posição de maior produtor mundial, produzindo cerca de 6000 toneladas de óleo bruto por ano e foi assim até o início da década de 70, quando esta atividade entrou em desaceleração. Isto ocorreu em virtude da sobreoferta do mentol brasileiro no mercado mundial. Afinal, os preços deste produto vinham caindo ano após ano e isto não agradava o cenário internacional – que cortou o investimento do setor. Somada à completa exaustão das terras para cultivo, a produção brasileira de Mentha arvensis deu lugar a paraguaia, forçando a emigração dos colonos paranaenses, adaptados a esta cultura, para o Paraguai.

 

Óleo Essencial de Laranja

 

O primeiro registro de extração do óleo essencial de laranja-doce (Citrus sinensis) ocorreu em 1930, em São Paulo, por imigrantes italianos. Mas esta indústria só mostrou sua força durante a Segunda Guerra Mundial, quando passou a atender a demanda norte-americana por este tipo de óleo. Isto porque os norte-americanos, com a guerra, foram obrigados a buscar alternativas para o crescente consumo de solventes que eram utilizados pelas indústrias plásticas, de tintas e de vernizes daquela época. E como o óleo de laranja é rico em d-limoneno, um solvente biodegradável, eles passaram a obtê-lo como uma opção frente à escassez dos tradicionais. Mais adiante, já na década de 60, nosso país passou a abrigar algumas fábricas de sucos concentrados – o que alavancou, definitivamente, as exportações brasileiras do óleo essencial de laranja. Afinal, o óleo passou a ser obtido em conjunto com a produção de suco e como a indústria citrícola cresceu, a oferta de óleo aumentou e os grandes negócios se multiplicaram.

 

Óleo Essencial de Eucalipto

 

Originário da Austrália, o eucalipto foi introduzido no Brasil em 1855, com o plantio das variedades globulus e citriodora. No começo do século XX, grandes plantações surgiram próximas à cidade paulista de Jundiaí, por uma companhia de estrada de ferro que tinha o seu objetivo básico no aproveitamento da lenha como combustível. Em decorrência da Segunda Guerra Mundial, houve a interrupção das importações de citronela (do tipo Java) para a preparação de fragrâncias. Com isso a indústria brasileira passou a utilizar o óleo essencial de Eucalyptus citriodora como substituto. A produção iniciou-se na década de 40, com a obtenção de 12 toneladas, evoluindo para 350 toneladas no começo da década de 70.

O óleo essencial de eucalipto citriodora é um líquido amarelo ou amarelo-esverdeado que cheira a limão. Dentre os seus constituintes, predomina o citronelal (rhodinal), presente em quantidades que variam de 60 a 85%. Contém, também, citronelol, isopulegol (resultante, talvez, da ciclização do citronelal durante a armazenagem), limoneno, p-cimento e pequenas porcentagens de alfa e beta pineno, cineol e guaiol. Na indústria, este óleo é bastante empregado na fabricação de produtos de limpeza e de repelentes para insetos. Da sua retificação, obtém-se o citronelal, utilizado em perfumaria e também na produção de mentol (via redução do isopulegol). Tônico geral, é considerado um óleo anti-séptico e bactericida. Alivia dores reumáticas, inflamações na garganta e atua como descongestionante das vias respiratórias. É, ainda, o preferido para a aplicação em saunas.

“Na década de 50, importantes empresas internacionais especializadas no aproveitamento de óleos essenciais para a produção de fragrâncias e aromas se instalaram no Brasil. É o caso da Givaudan, que chegou ao país em 1949 com a instalação do escritório administrativo no Centro de São Paulo e da fábrica no bairro do Jaguaré. Tal fato provocou um aumento no consumo interno de óleos, dando maior estabilidade a produção bem como a fixação de algumas culturas.”

Por fim, vale observar que ao contrário da atual situação dos óleos essenciais de menta e sassafrás, a indústria nacional produtora de óleo essencial de pau rosa mantém as suas atividades em função da preferência das empresas de fragrâncias norte-americanas e européias por este tipo de óleo, ao invés das versões sintéticas do linalol. No entanto, sua exploração só é permitida após a aprovação de um projeto de manejamento sustentável da espécie, incluindo as atividades de replantio das árvores em número igual ou superior às removidas. Já as indústrias dos óleos essenciais de laranja e eucalipto não integram um programa de manejamento tão rigoroso, pois ambas as espécies se adaptam bem a diversas regiões do país e são cultivadas com certa facilidade. Por esta razão, suas indústrias exibem saúde e colocam o Brasil numa posição de destaque frente ao mercado internacional.

Showing 7 comments
  • Jussara
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    Há relatos do uso de essências em 2.700 a.C pelos chineses, no mais antigo livro de ervas do mundo, Shen Nung.

    Outro uso documentado de óleos essências se deu em 2.000 a.C. em livros escritos em sânscrito, pelos hindus.

  • tabata
    Responder

    por favor pode me mandar por email algumas indicações de livros que posso achar em bibliotecas academicas ou artigos sobre os oleos essenciais, rotas biossinteticas de suas classes, extração e metodos de analises com CG, EM E RMN.

    OBRIGADA

  • Massao Geraldo Alves
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    No Brasil, destacamos o trabalho pioneiro do Químico e Farmacêutico alemão Rudolph Hufenüssler, qua já em 1925, dedicava-se exaustivamente ao cultivo de plantas para obtenção de óleos essenciais bem como sua extração e processamento industrial. Entre os autores e cientistas que se destacaram pelo estudo dos óleos essenciais, suas composições e aplicações estão: Otto Wallach, Leopold Ruzicka, Ernest Guenther, Brian Lawrence e Luigi Mondello.

  • Shirley Matos
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    Por favor, poderia me mandar por email algumas indicações de artigos acadêmicos sobre os óleos essenciais,estou terminando uma pós graduação e gostaria de ampliar os meus conhecimentos.
    Atenciosamente, Shirley.

  • Anibal De Vicente
    Responder

    Olá amigo, boa noite!

    Por favor, pode informar se tem o livro para vender e quanto custa? ou indicar alguma livraria em São Paulo onde posso encontrar. Desde já obrigado.

    Um abraço,
    Aníbal

  • Wagner Azambuja
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    Realmente Massao, Leopold Ruzicka foi um grande cientista, ganhador, inclusive, do Prêmio Nobel de Química em 1939. Ele foi o responsável pela síntese total do nerolidol e farnesol, pela elucidação da estrutura da jasmona e pela síntese de cetonas cíclicas homólogas de 9 a 34 membros.

  • maria tereza ribeiro
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    Sou de belo horizonte-mg ,tenho irma q esta c depressao,ansiedade e nervosismo. Que oleos sao mais indicados na aromaterapia p ela?

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