Como Usar os Óleos Essenciais

Escrito por Wagner Azambuja

 

Como Usar os Óleos Essenciais

 

O uso dos óleos essenciais para fins medicinais é conhecido desde a remota antiguidade. Há registros pictóricos de seis mil anos atrás, entre os egípcios, de práticas religiosas associadas à cura de males através dos aromas. Na China e na Índia as substâncias aromáticas também eram populares centenas de anos antes da era cristã. Mas foi só a partir da Idade Média, com o processo de destilação popularizado pelos muçulmanos, que se iniciou a real comercialização dos produtos aromáticos bem como um interesse maior por eles. Este foi, definitivamente, o pontapé da “revolução” nesta área, onde, em seguida, surgiram os primeiros livros acerca do uso medicinal das plantas e seus óleos. De lá para cá, muito tempo se passou, e hoje o encantamento é ainda maior, pois a medicina avançada, que caminha lado a lado com os avanços tecnológicos, não só comprova, mas também descobre – a todo instante, as riquezas destes produtos.

“Os óleos essenciais são comumente empregados de três formas distintas: por inalação, aplicação tópica ou ingestão.

 

Inalação de Óleos Essenciais

 

Dentre todas as formas de administração dos óleos essenciais, a inalação é a mais rápida, prática e, via de regra, a mais segura. A praticidade, aqui, refere-se a possibilidade do paciente realizar o seu tratamento sozinho e em qualquer lugar; seja através de um colar aromático, de um difusor elétrico a quente – o que não é o ideal, pois o calor pode degradar os constituintes mais sensíveis presentes nos óleos essenciais – ou, também, de um difusor ultrassônico, que é o mais indicado em aromaterapia, afinal, ao invés de calor, usa frequências elétricas para difundir (a frio) estes componentes. É, a priori, a mais segura porque é pouco provável, mesmo num ambiente fechado, e assumindo 100% de evaporação, que a concentração de algum óleo ou constituinte atinja níveis de alerta. Tecnicamente, na inalação, os componentes dos óleos essenciais atingem a traqueia, passam pelos brônquios, vão para os bronquíolos mais finos e, por fim, chegam aos alvéolos – que são como “sacos microscópicos” onde as trocas gasosas com o sangue acontecem. É exatamente neste ponto, então, que o óleo, ou os seus constituintes, atingem a circulação sistêmica; numa concentração diretamente proporcional ao fluxo sanguíneo através dos pulmões, taxa e profundidade dos movimentos respiratórios e, é claro, solubilidade destes constituintes, conforme explica Römmelt em “Pharmakokinetik ätherischer Öle nach Inhalation mit einer terpenhaltigen Salbe”. Exemplo: num estudo publicado por Jäger, intitulado “Pharmacokinetic studies of the fragrance compound 1,8-cineol in humans during inhalation”, as concentrações plasmáticas máximas de 1,8-cineol em alguns voluntários foram de 459-1.135 ng/mL, após serem submetidos a inalação (no ambiente) de 4 mL deste constituinte por 20 minutos; o que é bastante significativo. Já em outro estudo, publicado por Falk-Filipsson, intutulado “d-Limonene exposure to humans by inhalation: uptake, distribution, elimination, and effects on the pulmonary function”, a concentração plasmática média de d-limoneno (pureza de 97% a 450 mg/m3) em 8 voluntários, após 1 hora de vaporização foi de 1,5, 11 e 21 µmol/L – passando-se para 1,5, 12,5 e 23 µmol/L após 2 horas. Ou seja, tal como o 1,8-cineol, que comprovadamente traz benefícios ao paciente com bronquite ou sinusite, e o d-limoneno – que atua como calmante e sedativo, vários outros constituintes presentes nos óleos essenciais podem atingir a circulação sistêmica via inalação para exercerem seus efeitos. Definitivamente, os óleos essenciais não são simples “cheirinhos”.

 

Eucaliptol_Art               Limoneno

Via inalação, a concentração de óleo essencial que atinge a circulação sistêmica é diretamente proporcional ao fluxo sanguíneo através dos pulmões, a taxa e profundidade dos movimentos respiratórios e a solubilidade dos constituintes presentes no óleo.

 

Após entrarem na circulação sistêmica, via inalação, alguns componentes podem, inclusive, atingir o sistema nervoso central (SNC) e lá atuarem das mais diversas formas. Sabidamente, o SNC ocupa um papel de vital importância na anatomia humana, pois, grosso modo, ele é o responsável pela troca de informações com o restante do organismo. Para ilustrar isto, tem-se os resultados da pesquisa de Pultrini (2006), “Effects of the essential oil from Citrus aurantium L. in experimental anxiety models in mice”, que demonstrou uma diminuição da atividade espontânea, da criação e do comportamento geral de ratos submetidos a inalação do óleo essencial de Citrus aurantium, com 97,83% de limoneno e 1,43% de mirceno. Posteriormente, em 2014, Almeida em “Potential antioxidant and anxiolytic effects of (+)-limonene epoxide in mice after marble-burying test” relatou que o limoneno atua no SNC por meio do sistema GABAérgico, afinal, os ratinhos tratados com flumazenil – um antagonista dos efeitos hipnóticos e sedativos provocados pelos benzodiazepínicos – tiveram seus efeitos depressores revertidos; sugerindo que o limoneno atua da mesma forma que fármacos como diazepam, clonazepam e bromazepam, que são benzodiazepínicos clássicos empregados, dentre outros fins, no tratamento da depressão. Outro exemplo refere-se ao óleo essencial de lavanda, que, quando inalado, exerce no SNC um efeito calmante e sedativo peculiar, o qual vem sendo explorado, por exemplo, por maternidades europeias para aumentar o tempo de sono dos bebezinhos de 1 a 18 semanas. O óleo de lavanda, neste caso, atua por meio de um mecanismo de ação semelhante à pregabalina, que reduz o influxo de cálcio nos terminais pré-sinápticos em neurônios hiperexcitados do hipocampo, reduzindo dessa forma a liberação de neurotransmissores excitatórios, como o glutamato. Como resultado, tem-se o efeito sedativo esperado, o qual, em adultos, vem sendo explorado para o tratamento do transtorno de ansiedade generalizada (TAG).

 

Localmente, a inalação dos óleos essenciais também pode trazer vários benefícios, conforme cita Tisserand & Young (2014) no livro “Essential Oil Safety”. Como exemplo, tem-se o óleo essencial de tomilho, que é um ótimo antibacteriano/anestésico e o de camomila azul, um excelente anti-inflamatório; ambos com ação local. Neste caso, a estrutura fenólica do timol, presente no óleo de tomilho (QT timol) na razão de 40-70%, apresenta eficácia comprovada contra as bactérias Gram-positivas Streptococcus pyogenes, uma das principais causadoras da faringoamigdalite (dor de garganta clássica). Em paralelo, atua como anestésico natural bloqueando a condução de impulsos nervosos por meio da depressão de correntes de Na+ voltagem-dependentes; mecanismo este semelhante à lidocaína. Já o óleo de camomila azul, também conhecido por “camomila alemã”, contém alfa-bisabolol e camazuleno, constituintes que freiam o processo inflamatório através do bloqueio da enzima ciclo-oxigenase 2 (COX-2), interferindo, portanto, na produção das prostaglandinas (que são mediadores da inflamação). Além disto, são capazes de inibir a peroxidação lipídica, processo no qual espécies reativas de oxigênio acabam degradando os fosfolipideos existentes nas membranas celulares; trazendo problemas à homeostase. Em outras palavras, são antioxidantes clássicos. Ou seja, a “simples” inalação destes dois óleos essenciais, tomilho e camomila azul, através da ação local, pode contribuir significativamente para a recuperação total de pacientes com faringoamigdalite, por exemplo. A posologia, no entanto, é difícil de ser determinada com precisão, pois depende diretamente do método utilizado para evaporar o óleo, duração da inalação, tamanho do ambiente (em m3) e outros fatores; todavia, na média, utiliza-se de 6 a 8 gotas num difusor ultrassônico com capacidade para 100 mL. Para finalizar, na inalação, usuários mais sensíveis (epiléticos, por exemplo) devem apenas evitar óleos que contêm constituintes potencialmente neurotóxicos, como pinocanfona e tujona, por seus efeitos no SNC; lembrando, mais uma vez, que a inalação é – via de regra – a forma mais segura de utilização dos óleos essenciais – portanto, a mais indicada para usuários inexperientes.

Algumas dicas:

Difusor Aromaterapia Ultrasônico Óleo Essencial de Camomila Azul Óleo Essencial de Cravo Óleo Essencial de Eucalipto
 

Uso tópico dos Óleos Essenciais

 

Depois da inalação, a aplicação tópica dos óleos essenciais é, talvez, a forma de uso mais popular entre os aromaterapeutas, sendo também bastante praticada por outros profissionais; como esteticistas, massoterapeutas, etc. Demanda, tal como na inalação, um bom conhecimento a respeito destes óleos, em especial sobre suas propriedades terapêuticas e mecanismos de ação de seus principais constituintes. Isto porque, através de uma massagem, por exemplo, estes químicos podem atravessar as diversas camadas que compõem a pele e alcançar os vasos sanguíneos – exercendo, assim, vários efeitos. Tecnicamente, a pele, que é o maior órgão do corpo humano, é formada pela epiderme, que é a camada mais externa, e pela derme, a mais profunda. Na epiderme, localiza-se o estrato córneo, composto de células epidérmicas mortas embutidas em uma matriz lipídica o qual é a principal barreira fisiológica para o acesso de substâncias externas. Abaixo do estrato córneo, encontra-se o restante da epiderme (a epiderme “viável”) e, mais abaixo, já na derme, vem os nervos, glândulas sudoríparas, glândulas sebáceas, folículos pilosos, vasos sanguíneos e vasos linfáticos. A organização destas estruturas, obviamente, impacta diretamente no modo como os óleos essenciais penetram na pele e atingem a circulação sanguínea – que, a princípio, pode ocorrer de 3 formas: 1) via intercelular (entre as células da pele); 2) via transcelular (através delas); 3) através dos folículos pilosos. No caso dos folículos pilosos, aliás, o óleo essencial (por sua característica lipofílica) “pega uma carona” na secreção sebácea do próprio folículo; utilizando-o como meio de transporte para se chegar na circulação. Isto explica, por exemplo, porque alguns óleos essenciais conseguem uma penetração maior na pele do couro cabeludo. Mas além, muito além, deste sutil detalhe, o sucesso terapêutico da aplicação tópica dos óleos essenciais envolve vários outros parâmetros – principalmente no que se refere a absorção, onde, a compreensão inicial destas camadas que compõem a pele é de crucial importância.

 

Um estudo publicado na Journal of the Society of Cosmetic Chemists demonstrou que uma massagem com 1,5 g de óleo vegetal carreador contendo 2% de óleo essencial de lavanda (o equivalente, em média, a 7,23 mg de linalol e 8,64 mg de acetato de linalila), na região abdominal (cerca de 376 cm2) por 10 minutos, é capaz de atingir o sistema circulatório em pouco tempo. Afinal, após 5 minutos do término da massagem, detectou-se no sangue as quantidades de 30 ng/mL de linalol e 30 ng/mL de acetato de linalila, e, depois de 20 minutos, os picos plasmáticos de 121,08 ng/mL de linalol e 100,17 ng/mL de acetato de linalila. Estas concentrações, logicamente, estão dentro dos limites seguros e proporcionam, além dos benefícios tópicos, todos os benefícios sistêmicos da ação sinérgica destas substâncias no organismo. Afinal, o linalol – em especial o enantiômero R-(-), é um excelente relaxante natural, inclusive sobre a atividade cardíaca, o qual vem sendo aplicado com sucesso como agente anti-estresse. Já o acetato de linalila é um ótimo anti-inflamatório, que age bloqueando a enzima ciclo-oxigenase 2 (COX-2), interferindo, portanto, na produção das prostaglandinas (que são mediadores da inflamação). Por estes motivos, que vão da chegada do óleo na circulação sanguínea às propriedades farmacológicas de seus constituintes, é que uma massagem – com óleo de lavanda, é capaz de proporcionar ao paciente uma deliciosa sensação de relaxamento; e, também, de fortalecimento. Outro exemplo de aplicação tópica que, rapidamente, atinge a circulação sanguínea (por conta das características físico-químicas “favoráveis” de seus constituintes) e traz benefícios quase que imediatos ao paciente, refere-se ao óleo essencial de hortelã pimenta, rico em mentol. O mentol é um agente analgésico clássico, o qual, há anos, vem sendo explorado pela indústria farmacêutica para a fabricação de produtos para “dores”; como nevralgias, torcicolos (enrijecimento dos músculos do pescoço), contusões e dores musculares. Isto acontece porque, tecnicamente, o mentol parece ativar os receptores opioides do tipo kappa. Ou seja, com a ativação destes receptores, que estão localizados na superfície das células e são responsivos a cetociclazocina, dá-se início a uma série de reações químicas (com trocas do íon cálcio – Ca2+), onde, ao final da cadeia, impedem a excitabilidade neuronal e/ou a propagação dos potenciais de ação; terminando com a analgesia.

Acetato de Linalila         MentolOE

O óleo essencial de hortelã pimenta é rico em mentol, um agente analgésico clássico, o qual, há anos, vem sendo explorado pela indústria farmacêutica para a fabricação de produtos para “dores”; como nevralgias, torcicolos (enrijecimento dos músculos do pescoço), contusões e dores musculares.

 

Até aqui, no que se refere a aplicação tópica, não resta dúvidas de que a pele é composta por múltiplas camadas e que os constituintes presentes nos óleos essenciais podem tanto exercer efeitos mais externos, restritos à epiderme, quanto mais internos, por meio da chegada destes constituintes na circulação sanguínea. Por esta razão, e também por outros fatores que envolvem, por exemplo, as características físico-químicas de cada óleo, ajuste posológico, região e integridade da pele, idade do paciente, etc., é que os óleos essenciais – via de regra – não devem ser aplicados puros sobre a pele. Uma sobrecarga de R-(-)-linalol, por exemplo, na pele de uma pessoa sensível, pode resultar numa dermatite de contato alérgica; já no nível mais externo. Isto significa que, numa massagem, a recomendação geral é a de diluir o óleo essencial, ou a sinergia (blend), num outro óleo (vegetal) antes da aplicação direta “por segurança”. (*) embora, é claro, alguns óleos possibilitem a utilização tópica sem a necessidade de diluição – mas que exigem, nesta modalidade, a supervisão de um profissional habilitado e qualificado, como um aromaterapeuta, farmacêutico ou médico. Estes óleos vegetais, por vezes chamados de óleos fixos ou carreadores, também são naturais e possuem diversas propriedades terapêuticas; as quais acabam contribuindo, e muito, para o sucesso dos tratamentos. O óleo de semente de uva, por exemplo, é hipoalergênico, rico em vitamina E e proantocianidinas (agentes antioxidantes), que ajudam a balancear o pH da pele e lhes conferem um toque “aveludado”. Além disto, alguns óleos vegetais podem facilitar a penetração dos óleos essenciais através da epiderme -> derme, enquanto outros podem dificultar. De acordo com Cronin (1999) em “Investigation of the mechanism of flux across human skin in vitro by quantitative structure-permeability relationships”, por exemplo, compostos com massas moleculares maiores que 500, geralmente, têm maior dificuldade em permear a pele em relação aos menores; tal como os triacilgliceróis, que são ésteres de ácidos graxos, encontrados nos óleos vegetais. Ou seja, tudo depende. Fato é que os óleos essenciais, via de regra, devem ser diluídos (por segurança, principalmente) em algum óleo vegetal antes da aplicação tópica; o que pode trazer, além de benefícios terapêuticos, uma mecânica ainda melhor durante a aplicação – por facilitarem o deslizar das mãos. Conforme Tisserand & Young (2014) no livro “Essential Oil Safety”, a porcentagem de diluição dos óleos essenciais nos vegetais fica entre 2% e 3%, mas com um mínimo de 1% e um máximo de 5%. Abaixo, por fim, uma pequena relação dos óleos vegetais mais empregados:

Óleo de Amêndoas Doce [Sweet Almond Oil, Amygdalus communis dulcis]: era um dos óleos mais utilizados na fabricação dos antigos produtos de beleza. É rico em vitaminas A e B e possui propriedades emolientes, hidratantes, rejuvenescedoras, regeneradoras, amaciantes e nutritivas. Apresenta um alto poder penetrante, característica que faz dele o óleo ideal para diversos tipos de massagens, e é especialmente utilizado na prevenção de rugas e estrias. Também pode ajudar em doenças do sistema digestivo. No entanto, não deve ser confundido com o óleo de amêndoas amargas, que é tóxico em virtude do ácido cianídrico presente em sua composição.

Óleo de Castanha do Pará [Brazilnut Oil, Bertholletia excelsa]: é um óleo rico em ácidos graxos insaturados (oléico 38% e linoléico 35%), amirina e nutrientes essenciais nos processos bioquímicos de formação do tecido epitelial. Apresenta vitaminas A e E e uma considerável quantidade de dois minerais bastante importantes: o zinco, que afasta o risco de infecções, além de atuar no crescimento e na cicatrização, e o selênio, que fortalece o sistema imunológico, equilibra a tireóide e previne tumores. Este óleo, ainda, auxilia na restauração dos cabelos danificados e desidratados, hidrata a pele e pode substituir o azeite de oliva na culinária devido ao seu suave a agradável sabor.

Óleo de Gergelim [Sesame Oil, Sesamum indicum]: contêm aproximadamente 41% de ácido linoléico, 39% de ácido oléico, 9% de ácido palmítico e 5% de ácido esteárico, além de vitaminas A, B e E. É empregado na hidratação e proteção da pele. A vitamina E é um antioxidante natural, que retarda o envelhecimento da pele. Possui aminoácidos e cálcio. Não deve ser utilizado puro sobre a pele – o ideal é combiná-lo com outros óleos carreadores – nem incluir mais do que 10% do mesmo. É recomendado para pessoas de pele normal, para tratar de problemas como reumatismos, artrites, eczemas e psoríases.

Óleo de Gérmen de Trigo [Wheat Germ Oil, Triticum vulgare Vill]: trata-se de uma riquíssima fonte de vitamina E que, como já exposto, é a primeira defesa ante a peroxidação lipídica, o processo no qual os radicais livres invadem as estruturas intracelulares e contribuem para o envelhecimento precoce e doenças cardiovasculares. Contêm ainda consideráveis níveis de ácidos graxos insaturados, proteínas e sais minerais, elementos que nutrem as células e previnem o ressecamento da pele e as rugas. Por fim, é excelente para recuperar a pele seca e áspera e é ótimo para acelerar a cicatrização de feridas e queimaduras.

Óleo de Girassol [Sunflower Oil, Helianthus annuus]: é bastante concentrado em ácidos graxos insaturados com cerca de 70% de ácido linoléico e 19% de ácido oléico, que possuem propriedades hidratantes e emolientes. O óleo de girassol pode ser utilizado puro sobre a pele, de preferência oleosa, sem estar misturado a outros óleos vegetais.

Óleo de Mamona (Rícino) [Castor Oil, Ricinus communis]: o óleo de mamona, ao contrário das sementes, não contém ricina e por isso não é tóxico. Com aproximadamente 90% de ácido ricinoléico, trata-se de um poderoso adstringente – portanto ideal para peles oleosas. Porém, em virtude de suas características laxativas, ele não deve ser utilizado em aplicações alimentícias.

Óleo Essencial de Hortelã Óleo Essencial de Laranja Óleo Essencial de Lavanda Óleo Essencial de Tea Tree
 

Conforme Tisserand & Young (2014) em “Essential Oil Safety”, no que se refere as aplicações tópicas, a absorção média de um óleo essencial varia entre 0,03 – 0,06 mL. Todavia, para alguns óleos essenciais, a absorção não é “o fator chave” no que se refere à segurança, pois, alguns constituintes – a exemplo do bergapteno e da bergamotina, presentes no óleo essencial de bergamota, podem lesionar as camadas mais externas da pele quando empregados de maneira irresponsável. Isto acontece porque tanto o bergapteno, quanto a bergamotina, são furanocumarinas que absorvem fortemente a energia na região do ultravioleta (UV) e, por isso, são altamente reativas sob a incidência de luz. Então, após o uso tópico do óleo essencial de bergamota (non FCF), deve-se evitar a exposição ao sol, sob o risco de lesionar a pele com manchas escuras. Entretanto, as furanocumarinas não devem ser vistas apenas como vilãs da pele, afinal, sob acompanhamento profissional adequado (médico especialista), elas podem ajudar no tratamento de diversas enfermidades cutâneas, como psoríase, micoses, urticária, vitiligo, hanseníase, leucoderma, eczemas e outras. O psoraleno bergapteno, por exemplo, em combinação com a luz ultravioleta A (UVA – 320 a 400 nm), constitui um tratamento conhecido como PUVA (ultravioleta A contendo psoraleno, psoralen ultraviolet A), onde ocorre a formação de fotoadutos entre psoralenos e moléculas de DNA, além de outros componentes celulares, que – ao final da cadeia – estimula a produção de melanina, o pigmento responsável pela cor da pele. Outro exemplo é o óleo essencial de arruda, que, pelo elevado conteúdo de metilcetonas, cerca de 87%, em especial de metilnonilcetona e metil-heptilcetona, pode irritar as camadas mais superficiais da pele quando empregado em excesso. Ou seja, numa aplicação tópica, ainda que não haja absorção, alguns problemas podem ocorrer (restritos às camadas mais externas), todavia, na maioria dos casos, isto têm uma relação direta com o uso irresponsável [por falta de conhecimento].

O óleo essencial de camomila alemã (azul), diluído a 0,2% numa base cremosa neutra, mostrou-se superior no tratamento de dermatites de contato quando comparado a uma pomada de hidrocortisona a 0,5%, comumente utilizada para o alívio de manifestações inflamatórias e pruriginosas nas dermatoses sensíveis aos corticosteroides.

 

Logicamente, são muitos os benefícios que os óleos essenciais podem trazer à pele (num nível mais externo), e, também, para o organismo como um todo através da permeação de seus constituintes. São tantos benefícios, que, só este tema daria um livro (e que livro!). Portanto, ao menos este artigo, ficará restrito a apenas alguns exemplos, conforme se segue: óleo essencial de camomila alemã (ou azul), conforme já exposto, é rico em alfa-bisabolol natural – um poderoso anti-inflamatório pelo bloqueio da ciclooxigenase 2 (COX-2) – e em camazuleno, um outro anti-inflamatório que também apresenta propriedades analgésicas, fotoprotetoras e estimulantes dos processos de regeneração dos tecidos (granulação e epitelização). Este óleo, diluído a 0,2% numa base cremosa neutra, mostrou-se superior no tratamento de dermatites de contato quando comparado a uma pomada de hidrocortisona a 0,5%, comumente utilizada para o alívio de manifestações inflamatórias e pruriginosas nas dermatoses sensíveis aos corticosteroides. Já os óleos essenciais de laranja amarga + junípero (zimbro) formam uma bela combinação para o tratamento da celulite. Isto porque o óleo de laranja amarga tem efeito lipolítico comprovado, pois é capaz de estimular os receptores beta3-adrenérgicos e inibir, ao mesmo tempo, a enzima fosfodiesterase – resultando-se numa elevação da meia vida do AMPc intracelular e maior lipólise (quebra das moléculas de gordura). O de junípero, por sua vez, além de estimular a circulação, ainda tem um pronunciado efeito desintoxicante, que, por si só, é capaz de atenuar os efeitos da celulite que se enquadram nos graus mais leves desta manifestação. Outro óleo maravilhoso é o de tea tree (melaleuca), rico em terpinen-4-ol. O terpinen-4-ol é um poderoso bactericida – capaz de aniquilar as bactérias causadoras da acne com grande eficácia (próximo de 65%). De acordo com artigos publicados no International Journal of Antimicrobial Agents, isto ocorre porque ele, o terpinen-4-ol, causa um verdadeiro colapso no fluxo de íons nas membranas que revestem estas bactérias, levando-as a morte – e o melhor: sem causar quaisquer irritações na pele pelo seu uso, algo por vezes comum nos tratamentos com peróxido de benzoíla. Por fim, para os cabelos, tem-se o óleo essencial de alecrim (QT 1,8-cineol), que previne a queda de cabelos e a caspa. Isto ocorre porque o 1,8-cineol é um ótimo vasodilatador, por meio do bloqueio dos canais de cálcio, o que melhora a vascularização local e, consequentemente, a qualidade dos fios – ajudando no controle da queda. Já no caso da caspa (dermatite seborreica), este óleo pode ajudar por conta de sua propriedade adstringente, atuando, assim, no controle da oleosidade. Por esta razão, cabelos secos não devem ser “tratados” com este óleo, o qual é indicado para cabelos fracos (queda) e/ou com caspa.

Ingestão de Óleos Essenciais

 

No Brasil, atualmente, os óleos essenciais que são destinados à venda direta ao consumidor final (em frascos de 10 mL, por exemplo) são registrados, ou notificados, pela ANVISA na categoria de cosméticos. Isto significa que, toda e qualquer empresa idônea que trabalha com óleos essenciais nesta modalidade – de venda fracionada, deve, obrigatoriamente, possuir uma AFE – que é a Autorização de Funcionamento da Empresa – na ANVISA específica para “cosméticos” – e isto não é nada simples, nem fácil. Apenas, então, de posse de uma AFE para cosméticos, é que a empresa pode “registrar” ou “notificar” seus óleos essenciais para coloca-los no mercado. E o que isto tem a ver com a ingestão dos óleos essenciais? No Brasil, tudo, pois, embora os óleos essenciais sabidamente possuam inúmeras propriedades terapêuticas – as quais servem, inclusive, como ponto de partida para a fabricação de medicamentos comerciais – a ingestão deles no Brasil não está “apoiada” por nenhuma regulamentação. Afinal, conforme exposto, na ANVISA estes óleos são categorizados como cosméticos, e não como medicamentos. Isto explica, por exemplo, o fato de algumas marcas idôneas expressarem, em seus rótulos, a advertência: “USO EXTERNO“. Ou seja, o “USO EXTERNO” não significa (via de regra) que um determinado óleo é de qualidade duvidosa, ou adulterado, a ponto de lhe possibilitar apenas a inalação ou a aplicação tópica. Não mesmo. Trata-se, sim, de um cuidado por parte do fabricante que necessita atender a legislação brasileira que, mais uma vez, não enxerga o óleo essencial como um agente promotor da saúde, dotado de propriedades terapêuticas. Para eles (ANVISA), os óleos essenciais são “cosméticos”, e, como todos os produtos categorizados como tal, devem cumprir com rigor as determinações a eles impostas; de rotulagem à comercialização propriamente dita. Este panorama é bem diferente, por exemplo, do que ocorre em outros países – como na França, berço da perfumaria e aromaterapia que há séculos suporta, legalmente, a ingestão dos óleos essenciais. Então, no Brasil, a ingestão dos óleos essenciais é proibida? Não. O fabricante deve, obrigatoriamente, cumprir com a legislação brasileira, mas a decisão de ingerir ou não fica sempre a critério do cliente.

A advertência “USO EXTERNO” nos rótulos dos óleos essenciais devidamente registrados na ANVISA não significa, necessariamente, que eles não podem ser ingeridos. Trata-se, sim, do cumprimento da norma para “cosméticos”, afinal, embora os óleos essenciais possuam inúmeras propriedades terapêuticas – as quais servem, inclusive, como ponto de partida para a fabricação de medicamentos comerciais, no Brasil eles são categorizados como “cosméticos” e, por isto, devem expressar o “USO EXTERNO” em seus rótulos.

 

Independentemente desta questão regulatória, a ingestão dos óleos essenciais é um tema bastante complexo e delicado, o qual exige, não só um profundo conhecimento nesta área – a exemplo dos elementos que compõem cada óleo, suas propriedades farmacológicas e sinergias – mas, também, um bom conhecimento sobre fisiologia e patologia. Afinal, via de regra, a ingestão é a forma de administração com a maior biodisponibilidade para um óleo essencial. Biodisponibilidade, neste caso, refere-se a “quantidade” e a velocidade na qual o óleo, ou os seus componentes, são absorvidos e tornam-se disponíveis para exercerem suas funções em sítios alvo do organismo humano. Exemplo: de acordo com Zimmermann (1995), em “The relative bioavailability and pharmacokinetics of standardized myrtol”, a biodisponibilidade do 1,8-cineol, também utilizado para o tratamento de bronquite e sinusite, é de 95,6%, o que é bastante significativa. Ou seja, mesmo após atravessar o trato gastrointestinal (GI) e o fígado – num sistema conhecido como metabolismo de primeira passagem, o 1,8-cineol, após ingerido, chega na circulação sistêmica e, depois, em seus sítios alvo com 95,6% de sua estrutura química inalterada – portanto, pronto para agir. O “agir”, aqui, é benéfico e desejável, pois o 1,8-cineol comprovadamente suprime a produção de muco ao mesmo tempo em que reduz a sua viscosidade, facilitando, desta maneira, a expectoração. A posologia, neste caso, é de apenas 100 mg de 1,8-cineol, o que equivale a mais ou menos 1 gota de óleo essencial de eucalipto glóbulos, por exemplo. Vê-se, então, que a “potência” de um óleo essencial, quando ingerido, pode ser muito alta em pequeníssimas doses – o que, certamente, traduz-se em problemas (de superdosagem, geralmente) quando administrado por pessoas despreparadas. Outro exemplo: um estudo publicado em 1995 por Elisabetsky, intitulado “Effects of linalool on glutamatergic system in the rat cerebral cortex”, demonstrou que os efeitos do óleo essencial de lavanda, na razão de 200 mg/Kg, são comparáveis ao diazepam a 2 mg/Kg. Convertendo isto em gotas, tem-se que apenas 3 gotinhas deste óleo – o equivalente a 160 mg de óleo de lavanda, são capazes de proporcionar, grosso modo, os mesmos efeitos terapêuticos (inclusive em “potência”) de alguns benzodiazepínicos indicados para o tratamento de desordem de ansiedade generalizada. Ou seja, mais uma vez, fica evidente que a ingestão de óleos essenciais exige, sim, bastante conhecimento por parte do administrador, afinal, são produtos altamente concentrados onde um pequeno erro posológico pode trazer consequências bem desagradáveis.

Tisserand & Young (2014) no livro “Essential Oil Safety” afirmam que os óleos essenciais, quando ingeridos, proporcionam um efeito 10 vezes maior em relação à aplicação tópica, através de uma massagem, por exemplo. Por esta razão, e as outras já apontadas, tanto a posologia quanto a duração do tratamento devem levar em consideração vários fatores; como a concentração plasmática ideal, tempo de meia vida dos elementos que constituem o óleo, adesão do paciente, etc. Todavia, a título de “orientação”, observa-se que a maioria dos estudos publicados até o momento – que tratam da ingestão de óleos essenciais em adultos, utilizam doses que variam de 0,05 – 1,3 mL; com um intervalo médio de 0,22 – 0,66 mL no que se refere a absorção. Comparativamente, a absorção, no caso das aplicações tópicas, fica entre 0,03 – 0,06 mL (10x menor). A ingestão é, preferencialmente, realizada por meio de cápsulas contendo o óleo essencial diluído em algum meio lipofílico, como um óleo vegetal – a exemplo do óleo de gergelim (grau alimentício). Mas isto não significa, de maneira alguma, que um preparo mais “artesanal”, caseiro, não possa ser realizado. Após a ingestão, indicada por um profissional devidamente habilitado e qualificado, levando-se em consideração todos os cuidados necessários, é importante que haja um acompanhamento do paciente, pois, sabidamente, alguns constituintes naturalmente presentes nestes óleos podem irritar a mucosa gastrointestinal, em especial se já existir um histórico de úlceras. Aliás, quando o tratamento é bem aceito, é logo no estômago que vários destes constituintes começam a ser degradados (quebrados) por enzimas especializadas; a exemplo de alguns ésteres, que são hidrolisados no estômago. Em paralelo, é no metabolismo de primeira passagem, visto acima, que alguns constituintes são “desativados” pelo fígado, ou, como no caso do 1,8-cineol, passam para a circulação sistêmica praticamente inalterados ou, ainda, tornam-se mais tóxicos. Já na circulação sistêmica, além da biodisponibilidade, outro fator a ser considerado é o tempo de meia vida (t ½), que se refere ao “tempo gasto” para que a concentração plasmática de um determinado constituinte se reduza a metade. Exemplo: enquanto o tempo de meia vida do metileugenol é de apenas 1 hora e meia, aproximadamente, o do timol é de 10 horas; variável esta que, obviamente, afeta a posologia. Ou seja, o profissional especialista nesta área deve não só conhecer (a fundo) o mecanismo de ação dos constituintes que compõem cada óleo, mas, também, seus respectivos t ½ a fim de “montarem” esquemas posológicos adequados.

Abaixo, para finalizar, tem-se a compilação realizada por Tisserand & Young (2014) no livro “Essential Oil Safety” acerca de vários estudos que tratam da ingestão de óleos essenciais e suas respectivas indicações – lembrando que a administração oral, para crianças com menos de 20 Kg, não é recomendada.

 

ÓLEO ESSENCIAL DOSE DIÁRIA INDICAÇÃO
Óleo Essencial de Anis 300 mg Dispepsia
Óleo Essencial de Eucalipto Glóbulus 200 mg x 3 Sinusite
Óleo Essencial de Eucalipto Glóbulus 300 – 600 mg Expectorante
Óleo Essencial de Canela Casca 50 – 200 mg Perda de apetite e dispepsia
Óleo Essencial de Gerânio 0,45 mL (cerca de 10 gotas) Estresse e hipertensão
Óleo Essencial de Junípero (Zimbro) 20 – 100 mg Dispepsia
Óleo Essencial de Orégano 200 mg x 3 Parasitose intestinal
Óleo Essencial de Hortelã Pimenta 0,2 – 0,4 mL x 3 Síndrome do intestino irritável

 

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