Adulteração de Óleos Essenciais

Escrito por Mayra Corrêa e Castro
Este artigo foi originalmente publicado no Jornal de Aromatologia Laszlo, 7ª ed., Ano VII, Janeiro/16.
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Você está familiarizado com os métodos para verificar a pureza dos óleos essenciais (OEs): avaliações sensoriais e avaliações físico-químicas. No primeiro grupo, serão observados o odor, a cor, a limpidez e a viscosidade de uma amostra. Aqui, se você não for um perfumista com nariz treinado, é possível identificar apenas adulterações grosseiras, como aquelas em que se vende uma lavanda de cor roxa, ou uma camomila-romana com cheiro rancificado, ou um benjoim que escorre do frasco como se fosse OE de pinheiro. Não se espera que a lavanda seja roxa (ela é transparente), não se espera que a camomila-romana cheire a ranço (foi diluída em óleo graxo), nem que o benjoim escorra facilmente (foi diluído talvez em álcool). Mas aqueles que comercializam OEs adulterados se valem de falsificações mais sofisticadas, e identificá-las depende de avaliações a que o consumidor final não tem acesso. No meio da perfumaria, é consenso que o melhor instrumento para dizer se um óleo essencial é puro ou não é o nariz. Habilitado a detectar substâncias em quantidade ínfimas e a discriminá-las, o olfato humano – treinado – pode dar o veredito na avaliação de um odorante. Infelizmente, este super olfato não é o olfato da maioria das pessoas que compra aromaterapia. Então, o que resta aos consumidores é confiar na empresa da qual compram, pois se supõe que essa empresa teve acesso – e fez! – avaliações físico-químicas com o lote de OE que irá fracionar.

 

 

Teste de solubilidade, densidade relativa (gravidade específica), rotação óptica, índice de refração e o perfil cromatográfico (GC/MS, sigla em inglês para cromatografia gasosa e espectrometria de massa) são os testes que se espera serem feitos para cada lote de OE que uma empresa adquire. Todas as empresas fazem? Não. As que fazem, fazem para cada lote que chega em seu galpão? Não. Considerando que os testes tenham sido feitos para cada lote que chega no galpão, isso é garantia de que o OE que está no frasco de 10 ml é puro? Também não. A adulteração de um OE pode ser feita em vários momentos da cadeia produtiva: 1) na colheita: por exemplo, recolher Litsea enosma e L. mollifolia como se fosse L. cubeba; 2) na destilação: por exemplo, misturar casca de limão à verbena-limão; ou 3) no envase, adicionando-se substâncias de diversas naturezas ao lote de OE. Se fosse para classificar o pior momento para se fazer adulteração, seria com certeza o do envase para o varejo (fracionamento), porque, nesta etapa, o laudo cromatográfico já está emitido, validado e publicado. Seria um tipo de falsificação no qual a empresa paga para confirmar que comprou um lote puro e ela mesma o adultera depois. Difícil acontecer? Um pouco. Impossível? De forma alguma.

Entre as substâncias com as quais se adulteram os OE estão:

A) Diluentes visíveis ou não-visíveis à cromatografia gasosa. São substâncias que normalmente não alteram o odor do OE. Alguns métodos disponíveis para identificá-las são TIC (Total Ion Current), testes de solubilidade alcoólica/aquosa e alterações na operação da coluna do cromatógrafo.
B) Adição de OEs baratos a OEs caros.
C) Adição de isolados naturais. Exemplo: linalol natural para converter o OE de manjericão-exótico em OE de manjericão-lavanda.
D) Adição de isolados naturais-idênticos. São moléculas sintetizadas quimicamente, a partir de matéria-prima animal, vegetal ou microbiana, e que têm estrutura idêntica à natural. Exemplo: o mentol obtido do timol por hidrogenação. A discriminação desses isolados frequentemente depende da disponibilidade de bibliotecas caras, que são bancos de dados acoplados ao equipamento GC/MS. Muitas vezes, esses isolados deixam traços de sua síntese, como é o caso de compostos nitrogenados na l-carvona sintética.
E) Adição de isolados naturais-idênticos de origem petroquímica. Para identificá-los, é necessário conduzir teste de quiralidade no GC/MS, isto porque a síntese desses isolados produz mistura racêmica (enantiômeros na mesma proporção), que não é observável em OEs puros. Quando o isolado adicionado é um composto sem enantiômero, como se observa com o timol, o teste de quiralidade já não pode ser usado. Neste caso, deve-se aplicar teste de carbono-14, um teste de difícil acesso a muitas empresas, mesmo estrangeiras.
F) Adição de essências sintéticas.

Além desses seis tipos de substâncias adulterantes, é preciso lembrar que a qualidade dos OEs pode ficar comprometida devido à presença de contaminantes, como pesticidas e metais pesados, e também por sua deterioração devido ao armazenamento inadequado. A adulteração sempre pode ser acidental ou intencional. Quando for intencional, ela pode se converter numa prática comercial válida, contanto que o consumidor final esteja alertado da adulteração. O fabricante pode diluir um OE caro e alertar no rótulo de que aquele OE está diluído. Neste caso, o OE está adulterado? Sim. Mas, então, o consumidor está sendo lesionado? Não, uma vez que ele sabe que o OE está diluído e comprará o produto se quiser. Quando se trata da relação entre fornecedor e consumidor, laudos cromatográficos são indispensáveis, mas, no final das contas, o que mais importa é a reputação da empresa e uma política de marketing aberta e clara. Pode-se enganar um consumidor por muito tempo, mas não muitos por muito tempo.

Comments
  • Odilon jr
    Responder

    Ótimo texto.

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